Tudo é impermanente

No livro ‘Para abrir o coração’, que é um compilado dos treinamentos para a paz ministrados por Chagdud Tulku, há uma passagem em que o sábio diz: “tentar mudar o mundo sem mudar a nossa mente é como tentar limpar o rosto sujo que vemos no espelho esfregando o vidro”. Isto é, talvez uma parte de nossa insatisfação possa ser criada em nossa própria mente e não seja responsabilidade de pessoas, situações ou artefatos externos.

 

Nossa cultura ocidental ainda reflete o american way of life, que é o jeito de viver pautado pelo consumo, por coisas, onde o ‘ter é mais importante do que o ser’. Nesse cenário, por mais bens materiais que tenhamos sempre vamos querer mais, e como esse ciclo não acaba nunca, surge a frustração. Algumas iniciativas até estão tentando nos fazer refletir sobre a paz, a não violência, a preservação da natureza, o consumo consciente e outras formas mais sustentáveis de vida. Talvez tenhamos aí alternativas para nossa sociedade, mesmo que às vezes até alguns desses movimentos parecem fomentar um novo consumismo - que tal comprarmos roupas ecologicamente corretas para frequentarmos o restaurante vegano da moda, com nosso carro elétrico, e assim termos algo cool para postarmos no Instagram? Temos muita dificuldade em aceitar que tudo muda, que somos apenas um grão de areia no deserto infinito que é trajetória da humanidade. Negamos o fato de que os momentos não se repetem, as pessoas não são mais como eram, não trabalhamos mais lá, não temos mais aquela cara metade, aquele carro, aquela jaqueta, enfim, não somos mais daquele jeito que tanto amávamos. Bom, se pensarmos bem, talvez não amávamos tanto assim, mas quando surge a mudança inventamos uma paixão pelo que éramos.

 

Esse jeito de viver foi criado pelas nossas mentes. Nosso movimento mental é persistente, não para um minuto, constrói mundos, amigos, inimigos, planos e fica boa parte do tempo no passado e outro tanto no futuro. Mas será que a própria mente não pode nos ajudar a sermos pessoas melhores? Talvez nos tornemos mais estáveis ao vivermos um pouco mais no presente, no hoje, com essa pessoa e essas pequenas coisas efêmeras que nos rodeiam. Independente do ‘agora’ ser bom ou ruim, amanhã ele estará no passado. Que o hoje seja então bem vivido, pois jamais se repetirá.

 

Alexandre Garcia

Doutor em Administração, Speaker, Facilitador de Programas de Desenvolvimento de Lideranças e Prof. de Pós Graduação.

15/10/2019

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